"A minha missão esta noite é grandiosa, é tentar passar por minha boca o que está em nossos corações neste momento, sentimentos que não cabem em um mundo inteiro, resumir em singelas palavras angustias, felicidades, frustrações, saudades, sentimentos tão nossos, que os sábios aconselham silenciar diante tal impossibilidade.
Talvez um olhar ou um sorriso seja mais fiel a nossos sentimentos neste instante, pois o silencio que cantam os poetas vem não do não ter nada a dizer, mas da impossibilidade de exprimir por palavras o mundo que habita nesse silencio.
Este momento é único na vida de cada um de nós aqui, e uma formatura não pode ser utilizada meramente como uma forma de distinção social, pois não marcamos nossa passagem na sociedade simplesmente colocando nossa foto num descerramento de placa.
O tom poético e provocativo com o qual inicio meu discurso convida-nos a refletirmos sobre o papel do bacharel em Direito hoje.
O dia de hoje vai além de nossos sentimentos individuais e familiares, e desborda na sociedade que hoje volta os olhos para nós e veio celebrar um contrato conosco, um contrato que tem por objeto a paz e a Justiça social, que cada um de nós hoje se obriga a cumpri-lo.
O Direito é por excelência um curso de vanguarda, que está diretamente relacionado com o futuro da sociedade e o silencio proposto a bem pouco tempo já não mais convém por que agora é uma questão de dar explicações à sociedade, quase como um mandato político, e aquele que ainda não percebeu se tratar o direito de política?
De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar as desonras, de tanto ver se agigantar o poder nas mãos dos mãos, o homem chega a desanimar-se da honra, a rir-se da virtude e a ter vergonha de ser honesto. O saudoso Rui Barbosa aos escrever estas linhas, não poderia imaginar que essa crise de valores se agravaria ainda mais nos dias de hoje, e que A Justiça precisa cada vez mais de homens honrados, virtuosos e honestos.
Ao profissional do Direito hoje não é permitido recuar, não se é permitido silenciar diante da sociedade em que vive, sobretudo quando do seu silencio nascer o menor abandonado, a mulher espancada pelo marido, a educação de má-qualidade, nascer a injustiça.
O profissional do Direito não deve ter pretensões megalomaníacas de salvar o mundo, deve ter a sanidade de saber que jamais conseguirá, mais tem que ser louco o bastante para todo dia tentar fazê-lo, com a certeza de um louco que todos os dias vai até a mais resistente rocha tentar quebrá-la, por acreditar que preso dentro dela estão várias vidas humanas, e que elas dependem de como a rocha vai ficar quando ele partir
Temos que quebrar todas as correntes para que amanhã não sirvam para aprisionar nossos filhos, jamais aceitemos um estado de coisas que não coabita com o sentimento de justiça que carreguemos conosco no peito.
Hoje, nós temos bacharéis em direito que não se importam com a ressonância de suas ações, anestesiados pela servidão constante, e desacreditados da Justiça! Um bacharel em direito desacreditado da Justiça??? Não seria como um médico que não acredita na beleza da vida? Ou como um agricultor que não acredita que as plantas crescem e que delas provem os frutos??
Não é a toa que andam dizendo por aí que um analfabeto sabe mais sobre justiça do que um bacharel em Direito!...é!!!, isso por que quando se depara com uma situação, o analfabeto diz em cima da bucha...tá errado!!!, e nós passamos cinco longos anos estudando teorias e mais teorias e quando nos deparamos com essa mesma situação dizemos, é assim mesmo, isso num muda não!
E nosso estudo e ambição não nos faz perceber que dia a dia nos afastamos do nosso precioso objeto de estudo, o ser humano.
Não podemos nos transformar em juristas anestesiados dos problemas da sociedade, até porque não temos o direito de nos desesperançar, de desacreditar na Justiça, temos que olhar o copo sempre meio cheio e não meio vazio como o fazem os pessimistas, não podemos chorar por saber que as rosas tem espinhos e sim sorrir por saber que os espinhos tem rosas como dizia o grande poeta Machado de Assis.
A natureza, dizia Dostoievski na literatura Russa, divide o homem em duas categorias: uma inferior dos ordinários, espécie de matéria que tem por única missão reproduzir-se; e a outra, superior, compreendendo os homens que têm o dever de fazer no seu meio uma palavra nova. As subdivisões são inúmeras, naturalmente, mas as duas categorias apresentam traços muito característicos. À primeira, pertencem, na generalidade, os conservadores, os homens de ordem, que vivem na obediência e têm por esta grande apreço. Na minha opinião são mesmos obrigados a obedecer, porque é a missão que o destino lhes impõe, e isso nada de humilhante tem para eles. O segundo grupo compõe-se exclusivamente de homens que transgridem a lei, os destruidores ou inclinados a sê-lo, a julgar por suas faculdades. Naturalmente os seus arrimes são relativos e muito diferentes. Em sua maior parte eles reclamam, em declarações variadas, a destruição do presente em nome de alguma coisa melhor....
O profissional do direito deve ter o espírito transgressor como a segunda categoria de Dostoievski, principalmente na atmosfera social em que nos encontramos, totalmente hostil e opressora, onde a manutenção do status quo implica na renuncia maciça de direitos das classes menos favorecidas. Sociedade onde a ganância, a ostentação e o luxo são vitoriosos, sociedade onde a visão de grandeza e os valores são distorcidos pelo capital, onde as relações humanas estão cada vez mais frívolas, onde o dinheiro compra sexo, compra admiração, compra amigos, compra prestígio, compra vidas!!!
É nessa sociedade em que vamos viver, é essa sociedade, imersa numa abissal crise de valores, e que neste momento celebra conosco um contrato de continuidade, e nós somos os responsáveis pelos dias que virão.
É nessa sociedade que Paulo Freire viu estar dividida entre aqueles que não dormem porque tem fome e aqueles que não dormem com medo dos que tem fome. É nessa sociedade que Manoel bandeira viu o bicho revirar o lixo em busca de alimentos e percebeu-se tratar de um ser humano. É nessa sociedade que nos iremos viver.
O medo de” botar a cara a bater” é grande, sei, todos sabem, e as pessoas lidam com seus medos de diversos modos, isso faz com que alguns enfrentem o palco. Isso fez com que Nelson Mandela enfrentasse o palco na África, que Martin Luther King enfrentasse o palco nos EUA do Apartheid, os inimigos da ditadura enfrentassem o palco contra o poder instituído, que o próprio Cristo enfrentasse o palco pela humanidade, tudo para que seus sonhos no futuro pudessem vir a ser tocados, como carne e osso, pois não há nada como sonho para criar o futuro e nas belíssimas palavras do ex-presidente norte-americano Roosevelt “ O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos”
E isso é a história, ela passa necessariamente por nós, e aos omissos restará o anonimato, o silencio da história, do que poderia ter sido e não foi, pois a história, assim como a vida, não registra intenções.
Allyson Mascaro em palestra na nossa capital contou uma história, que jamais esquecerei...
“hoje olhamos para aquela sociedade escravocrata dos séculos passados e dizemos, povo sem coração aquele que escravizava seus semelhantes, amanhã, talvez, quem sabe, olharam para hoje e dirão, sociedade mais sem coração aquela do século XXI, que viam seus semelhantes morrerem de fome e nada faziam”
Na Grécia antiga, Sócrates foi condenado por todos os juízes de Atenas, todos foram chamados para decidir sua situação, cerca de 500 (quinhentos juízes) hoje nós não sabemos o nome de um sequer, mas Sócrates nós Sabemos muito bem quem foi, quem será o próximo Sócrates? O próximo Mandela, o próximo Gandhi?
tenho duas mãos e o sentimento do mundo, dizia Drummond, sabemos que duas mãos são poucas, mas unidas a mais duas , são quatro e assim por diante.
Tenho certeza que cada um aqui estará em um bom lugar e cedo ou tarde, estaremos no palco, e caberá a cada um decidir, aos omissos o silêncio da história.'
Luis Francivando Rosa da Silva
The, 31 de Janeiro de 2010