Esses dias resolvi abrir meu baú de livros; sabe aqueles livros que estão bem lá no fundo, empoeirados, com aquele cheiro de livros velhos...huuumm
Foi um dia bom, rever meu passado, meus sonhos, minhas lágrimas, minha definição de mundo, política, vida e tudo que me envolve ali naquelas páginas amareladas, marcadas com folhas de eucalipto, e flores que colhia no caminho até o colégio.
Reencontrei o que era, e ainda acredito ser, meu maior tesouro: meus livros de filosofia. Ganhei esses livros de minha mãe no meu aniversário de 15 anos, e até hoje, não entendo o que pode passar na cabeça de uma mãe ao dar uma coleção de livros de filosofia tão complexa como esta pra sua filhinha inocente. Lembrei de todas as perguntas que me fiz lendo aquelas páginas, entre prefácios de filosofias ditas do futuro, e despojos de tragédia. “Bom” e “Mau” “bom” e “ruim”. “Culpa” “Má Consciência” e coisas afins...
Peguei meu tesouro nas mãos e resolvi ler, uma por uma, cada uma daquelas palavras que tanto me “despertaram” outrora, não que eu tenha passado todo esse tempo sem ler meus autores favoritos, só que nesses últimos anos foi mais uma leitura superficial, de quem sabe o que está procurando, e nem precisa abrir o livro pra saber o que quer, é só ir ali, na internet (ah! A internet, tão inimiga dos grandes pensadores) e ver um resuminho, e tirar aquela duvida que teima em aparecer, mesmo depois de tantos anos; tive medo, é, medo! Medo de mudar totalmente de opinião, medo de não achar mais tão interessante todas aquelas questão amorais ali contidas, medo de descobrir que me tornei o que sempre abominei nas “coleguinhas de sala”: ser como uma adolescente boba que prefere ler revista “capricho” ao invés da National Geographic, nunca entendi porque a maioria das pessoas prefere passar pela vida sem se dar o prazer de fazer simples perguntas: O Que? Como? e Por quê?. Tive medo de não ter mais o tal do Zaratustra segurando minha mão e me dando as respostas, mesmo que erradas, medo de acreditar que meu tesouro está no meu coração, e não no meu conhecimento (como se meu conhecimento não tivesse sido cultivado dentro do que sinto; “sou aquilo que sinto” – Ele discordaria?.)
Fiquei ali parada, olhando pro meu passado, minhas tardes chuvosas tão cheias de duvidas sobre a vida, a humanidade, sobre mim. E me veio àquela pergunta que parecia ser inevitável: O que mudou de lá pra cá? Alguma coisa mudou desde então?
Decidi descobrir, peguei o livro que estava mais próximo, afinal, à hora era perfeita: primeiro domingo do ano, e chovia...
Abri e li o prefácio, e lembrei que foi aquele prefácio o primeiro que li há quase sete anos atrás, foi ele que me fez sentir necessidade de ler todo o resto, afinal, aquela “criatura” dizia que “Este livro pertence aos homens mais raros”
Então, eu ia enfim descobrir o que tinha me tornado: se uma pessoa que não apenas olha, mais vê, ou aqueles tipos que passam pela vida sem admirar a beleza ao seu redor. E o que mudou em mim: os meus olhos, ou os do resto do mundo. Uma coisa é certa, algo de novo hei de descobrir.
Para os caros leitores mais um trecho do livro que me introduziu no mundo das interrogações:
“Olhemo-nos face a face. Somos hiperbóreos – sabemos muito bem quão remota é nossa morada. “Nem por terra nem por mar encontrarás o caminho aos hiperbóreos”: mesmo Píndaro, em seus dias, sabia tanto sobre nós. Além do Norte, além do gelo, além da morte nossa vida, nossa felicidade... Nós descobrimos essa felicidade; nós conhecemos o caminho; retiramos essa sabedoria dos milhares de anos no labirinto. Quem mais a descobriu? – O homem moderno? – “Eu não conheço nem a saída nem a entrada; sou tudo aquilo que não sabe nem sair nem entrar” – assim suspira o homem moderno... Esse é o tipo de modernidade que nos adoeceu – a paz indolente, o compromisso covarde, toda a virtuosa sujidade do moderno Sim e Não. Essa tolerância e “largeur” de coração que tudo “perdoa” porque tudo “compreende” é um “siroco” para nós. Antes viver no meio do gelo que entre virtudes modernas e outros ventos do sul!... Fomos bastante corajosos; não poupamos a nós mesmos nem os outros; mas levamos um longo tempo para descobrir aonde direcionar nossa coragem. Tornamo-nos tristes; chamaram-nos de fatalistas. Nosso destino – ele era a plenitude, a tensão, o acumular de forças. Tínhamos sede de relâmpagos e grandes feitos; mantivemo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos, da “resignação”... Nosso ar era tempestuoso; nossa própria natureza tornou−se sombria – pois ainda não havíamos encontrado o caminho. A fórmula de nossa felicidade: um Sim, um Não, uma linha reta, uma meta...”
O Anticristo
Ensaio de uma Crítica do Cristianismo
Friedrich Wilhelm Nietzsche
PS: se autodenominava um homem póstumo! Ai de ti Zaratustra, se tivesse nascido da mente de um homem deste século.
2 Cabeças Pensantes:
Nietzsche é sempre amor e ódio a um só tempo, nunca os dois sentimentos isolados, dissonantes... é um soco na boca do estômago, mas ainda prefiro o Sócrates de Platão, ou de Vlastos... :D
valha como tu se passa!
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